quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O JULGAMENTO DE CAZUZA

 
As frases em itálico NÃO REPRESENTAM A OPINIÃO do Autor deste Post, no caso  EU.
 
"Cazuza é um Rebelde..."
"Cazuza é viado, tá com AIDS, vai morrer..."
"Bem feito pra ele, quem mandou namorar com homem..."
"Cazuza está morrendo... você viu? está magro, careca...."
"Ouvi falar que ele está tomando sangue de cavalo para tratar a AIDS..."
"Ouvi dizer que os Professores estão dando pontos a mais para os alunos que assistirem esse filme. Como podem fazer um filme homenageando um marginal, pederasta, desobediente, rebelde - que exemplo ele poderia ser para os nossos filhos?..."
 
Essas e muitas outras frases foram ouvidas por mim e muitos outros em momentos do cotidiano e não através da mídia. Retratam o pensamento das pessoas dos anos 80. Pode parecer chocante para nós, agora que a palavra "preconceito" foi empregada como nunca antes na história deste país.
Um dia desses me deparei com um post compartilhado no Facebook de uma Psicóloga Clínica simplesmente detonando o Filme "CAZUZA - O TEMPO NÃO PARA". Seus argumentos se baseiam nos fatos apresentados no filme que retratam a vida de Cazuza. Seus crimes, seus amores, seus pecados e as consequências disso tudo. Rotulou como "inadmissível" reverenciá-lo, por mais que reconhecesse que suas letras são "tocantes". Seque o texto na íntegra:
 
'Fui ver o filme Cazuza há alguns dias e me deparei com uma coisa estarrecedora... As pessoas estão cultivando ídolos errados. Como podemos cultivar um ídolo como Cazuza?
Concordo que suas letras são muito tocantes, mas reverenciar um marginal como ele, é, no mínimo, inadmissível.
Marginal, sim, pois Cazuza ...
foi uma pessoa que viveu à margem da sociedade, pelo menos uma sociedade que tentamos construir (ao menos eu) com conceitos de certo e errado.
No filme, vi um rapaz mimado, filhinho de papai que nunca precisou trabalhar para conseguir nada, já tinha tudo nas mãos. A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras. O pai preferiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr solta.
São esses pais que devemos ter como exemplo?
Cazuza só começou a gravar porque o pai era diretor de uma grande gravadora...
Existem vários talentos que não são revelados por falta de oportunidade ou por não terem algum conhecido importante.
Cazuza era um traficante, como sua mãe revela no livro, admitiu que ele trouxe drogas da Inglaterra, um verdadeiro criminoso. Concordo com o juiz Siro Darlan quando ele diz que a única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não.
Fiquei horrorizada com o culto que fizeram a esse rapaz, principalmente por minha filha adolescente ter visto o filme. Precisei conversar muito para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais, beber até cair e outras coisas, fossem certas, já que foi isso que o filme mostrou.
Por que não são feitos filmes de pessoas realmente importantes que tenham algo de bom para essa juventude já tão transviada? Será que ser orreto não dá Ibope, não rende bilheteria?
Como ensina o comercial da Fiat, precisamos rever nossos conceitos, só assim teremos um mundo melhor.
Devo lembrar aos pais que a morte de Cazuza foi consequência da educação errônea a que foi submetido. Será que Cazuza teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissessem NÃO quando necessário?
Lembrem-se, dizer NÃO é a prova mais difícil de amor.
Não deixem seus filhos à revelia para que não precisem se arrepender mais tarde. A principal função dos pais é educar... Não se preocupem em ser 'amigo' de seus filhos.
Eduque-os e mais tarde eles verão que você foi à pessoa que mais os amou e foi, é, e sempre será, o seu melhor amigo, pois amigo não diz SIM sempre.'
Usarei este espaço, o MEU espaço, para expressar minha opinião:
 
O Filme é claramente Biográfico. Descreve a vida de Cazuza com detalhes, não apenas focando na parte artística, mas também em fatos da sua vida pessoal.
 
Cazuza foi SIM rebelde, desobediente, desrespeitoso com os pais. Usou Drogas? Muitas! Teve comportamento de risco? Sim, o filme mostra isso. Mas acredito que esses fatos não estão ligados, ou não necessariamente são a razão do seu talento com a Poesia e a Musica, na minha opinião, INCONTESTÁVEIS. Lógico, poderiam servir de "inspiração" para uma coisa ou outra, mas temos de convir que Cazuza expressou sua opinião e teve coragem de assumir seus vícios e virtudes. Era autentico e maior de idade.
 
O Fato dele ter tido uma condição social favorável não tira o mérito que ele conquistou por meio de poesia e musica, mesmo inspirado por suas loucuras. Já chega dessa desculpa de que "Existem vários talentos que não são revelados por falta de oportunidade ou por não terem algum conhecido importante." ... Se as musicas de Cazuza não fossem boas, não teriam feito o sucesso que fizeram e ainda fazem. O cara não tinha culpa de ser rico e ter uma porta aberta em uma gravadora. Qualquer pessoa faria a mesma coisa no lugar dele. Seria hipocrisia pura ter os meios e não usá-los em benefício próprio.
  
Não quero entrar no mérito das drogas pois o assunto é vasto e interminável e vai tirar o foco deste post. Mas comparar Cazuza com Fernandinho Beira Mar acho um pouco de exagero. Cazuza não Assaltou Bancos nem foi líder de uma organização como o Comando Vermelho.
 
Uma coisa que concordo com o texto acima é que os jovens precisam ser orientados com respeito às drogas, e outros comportamentos de risco, comuns não só no meio artístico, mas também no meio acadêmico e até mesmo político nos dias de hoje. Mas em nenhum momento achei que o filme exaltasse os bacanais, bebedeiras e abuso de drogas que fizeram parte da vida de Cazuza. O filme foi apenas biográfico. Mostrou claramente as consequências de se ter um comportamento de risco, seja pelo abuso de drogas, sexo sem proteção, desobediência, rebeldia sem causa, etc... mostrando o desespero de Cazuza ao descobrir que tinha AIDS e fazendo questão de mostrar os efeitos da doença, ainda pouco conhecida, além do efeito psicológico na vida dele. Em alguns aspectos Cazuza caiu em sí e as consequências de suas loucuras acabaram o aproximando de sua mãe, a quem ele podia contar e jamais o abandonaria.  Cazuza assumiu suas escolhas e loucuras e pagou com a própria vida. O Filme Exalta sim o talento e todo o legado que ele deixou com suas poesias e suas musicas. 
 
Ou será que você, leitor que já era nascido quando Cazuza ainda era vivo, não lembra da mídia? Dos comentários nas ruas? Do Medo da AIDS (ou preconceito) pensando que ela poderia ser contagiosa como a Lepra? Nunca prestou atenção na letra de "Ideologia"?
Ideologia - Cazuza
 
"Meu partido é um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito 
...
O meu prazer agora é risco de vida...
O meu sex and drugs não tem nenhum Rock n' Roll..." 
 
- Aqui você pode notar que ele tinha consciência das consequências dos seus atos desenfreados e mesmo assim não deixa de listar as mesmas.
 
Boas Novas - Cazuza
 
"Senhoras e Senhores
Trago boas novas
Eu vi a cara da morte e ela estava Viva..."
 
- O que um soropositivo mais quer na vida é viver. Ninguém tem mais esperança de cura até o ultimo minuto do que eles. Cazuza não foi diferente.
 
O Tempo não para - Cazuza
 
"Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta..."
 
- Outra resposta de Cazuza à Mídia sensacionalista que insistia em revirar sua vida pessoal por simples audiencia. 
 
Outro fato chocante aconteceu no famoso show no canecão, que veio a se tornar o Album "O tempo não Para - Cazuza Ao Vivo". Em certo momento do show, no auge de sua fragilidade, Cazuza se enxuga com uma toalha e a joga para o publico. Naquela época AIDS era sinônimo de "Doença incurável altamente mortal e contagiosa". Abriu-se um "clarão" no publico. A toalha molhada com seu suor caiu no chão e ninguém quis pegar, Causando a revolta do artista.
 
Já se perguntou se ele não sofreu o suficiente? Acha difícil ele ter caído em sí mesmo diante de tantas poesias externadas no auge da doença e toda luta que teve em vão em busca de cura? 
 
A verdade é que todos, sem exceção, temos nossas qualidades, defeitos, loucuras e frustrações. Buscamos em nossos heróis um incentivo para fazer da nossa vida o melhor que pudermos não apenas através de conselhos dos mais velhos, senão seríamos apenas repetidores. Mas sim, também através de nossas próprias descobertas. Você toma descisões, você aprende com elas, você vive do que aprendeu. Somos produto das escolhas que fizemos. Cazuza pagou pra ver, da maneira mais entregue possível e isso lhe custou a vida. Mas não é razão para nos sentarmos na cadeira de Juiz e apontar o dedo para quem não pode sequer se defender. Se fosse para derrubar heróis teríamos que começar bem antes de Alexandre o Grande, Nero, Napoleão, D. Pedro I, Che Guevara... todos com suas loucuras e mesmo assim lembrados pelos seus "feitos" ou "desfeitos" no decorrer da história. Acho essa forma de Julgamento, na minha humilde opinião, nada saudável.
 
Eu sou Ronald Sales e este é o meu Blog ;)


 

 

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